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Deu Tudo Errado em Paranapiacaba

Deu Tudo Errado em Paranapiacaba


Esse texto começou a ser escrito no final de dezembro de 2021, mas acabou que eu... esqueci. Agora, final de janeiro de 2022, vou tentar continuar contando a história sem perder o fio da meada (apesar de ter perdido faz um mês).

Início de 2021.

Eu e minha companheira estávamos conversando, até que ela comentou sobre sua vontade de acampar. Falou sobre como ela sempre quis acampar, sobre a curiosidade que tinha pra saber como é, etc.

Em determinado momento, ela perguntou o que eu achava sobre isso. E eu fui sincero:

"Me parece uma grande furada."

Junho de 2021.

Falávamos sobre viajar, pra onde gostaríamos de ir, possíveis destinos pro final do ano e pra 2022. Eventualmente, ela falou sobre o Festival de Inverno de Paranapiacaba. Demos uma pesquisada, parecia ser bem legal. Mas aí claro, estamos na pandemia e o festival de 2021 foi online. Broxante, mas compreensível. De qualquer jeito, vimos fotos de Paranapiacaba, pesquisamos sobre sua história, lemos várias coisas que pintavam a vila (quase disse cidade, mas seria errado) como um lugar muito aconchegante, com um ar quase místico. Assim, entrou no nosso radar.

Agosto de 2021.

Depois de meses conversando sobre e eventualmente vendo vídeos que tratavam sobre o assunto, eu de fato me interessei por acampar, quem diria... comecei a achar a ideia de dormir numa barraca no meio do mato honestamente muito legal, e me deu vontade de experimentar. Conversei com minha companheira e decidimos: no final do ano, iríamos acampar pela primeira vez.

E aí foram semanas pesquisando sobre acampamento: quais tipos de barraca existem, de que tamanho nossa barraca deveria ser, qual o tamanho da mochila, quanta comida devemos levar, o que mais precisamos comprar, etc. Foi um período em que focamos bastante nessa pesquisa toda, e eventualmente fizemos um orçamento do que teríamos que comprar, favoritamos todos os links no navegador, toda aquela coisa.

Além disso, procuramos por campings em Paranapiacaba e região, e acabamos achando um que parecia bem legal! Era bem simples, mas tinha cozinha, um espaço bem amplo, trilhas próximas, etc. Virou nosso destino de cara!

Outubro de 2021.

Esse foi um mês importante porque foi quando eu comecei a me desligar mais do centro acadêmico de que eu fazia parte, por conta do fim do meu mandato. Ao mesmo tempo, minha companheira ingressou na gestão do centro acadêmico dela para o próximo ano. Então foi um período em que eu comecei a ter muito tempo livre e ela o exato oposto.

Tendo isso em mente, decidimos por uma data. Abrimos o calendário, procuramos em quais dias ela estaria disponível e batemos: 20 de dezembro de 2021.

Adicionamos aos nossos calendários pessoais e assim tínhamos uma data combinada e um objetivo claro.

Novembro de 2021.

Nós refizemos as contas do orçamento e percebi que nem se a gente economizasse muito em novembro e dezembro daria pra comprar todas as coisas que precisávamos. Acontece que equipamentos pra acampar, sobretudo barraca e mochila, são extremamente caros, e nós dois, universitários que sem nenhuma fonte de renda, não daríamos conta.

Foi aí que me veio a lembrança: um primo meu foi escoteiro por muitos anos. Se tinha alguém que poderia nos emprestar o equipamento, esse alguém era ele.

Dito e feito: conversei com ele e de fato havia uma barraca pra duas pessoas e duas mochilas de 40 L (mais sobre isso daqui a pouco...) paradas na casa! Mais perfeito impossível. Marcamos de nos encontrar um dia na casa dele (e foi ótimo) e já trouxemos o equipamento todo pra casa. Agora só faltava comprar as outras coisas, que felizmente sairiam bem mais baratas.

Certo?

(Final de) Novembro de 2021.

Esse período foi bem importante pra nós dois, porque ela estava se envolvendo mais nas responsabilidades do centro acadêmico e eu passando pelo processo seletivo do meu atual emprego. E acabou que isso afetou nossos planos: ela teria um evento justamente na segunda-feira em que tínhamos planejado viajar, e minha entrevista final pra empresa foi marcada pra terça-feira. Assim, não tivemos escolha se não adiar a viagem pra quarta-feira, dia 22 de Dezembro. Ficaríamos só 2 dias no camping, mas fazer o que. Sexta-feira já era véspera de natal.

Dezembro de 2021.

E finalmente chegou o mês! Minha companheira passou uns dias na minha casa pra que planejássemos os toques finais. A viagem seria na quarta, então aproveitamos pra já comprar tudo que seria necessário sexta, sábado e domingo, pra não ficar corrido.

E minha nossa, como foi caro! A comida foi ok, mas tivemos que comprar panelas, talheres, e... como a gente vai cozinhar mesmo?

Pois é, embora o camping tivesse cozinha nós queríamos evitar por conta do COVID, então teríamos que arranjar uma maneira de cozinahr por nós mesmos. A princípio queríamos comprar um "tripé" pra colocar as panelas em cima de uma fogueira, o que facilitaria muito. Mas não achamos por nada algo do gênero.

E lá fomos nós pra uma loja de camping que tem aqui na minha cidade, onde achamos um fogareiro. Um fogareiro é como se fosse uma boca de fogão portátil: você acopla um butijãozinho de gás no bico e ele tem um mecanismo que acende uma faísca. Simples e prático... mas que preço salgado. Nosso dinheiro já estava no fim, por conta das compras anteriores.

Então eu recorri à prática milenar de pedir aquilo de Natal pros meus pais. Eu fiquei meio chateado por ter que fazer isso, já que queria que aquela viagem fosse minha e da minha companheira, sem precisar da ajuda de ninguém. Mas acontece, foi um gesto muito gentil da parte deles. E agora que eu comecei a trabalhar consigo comprar as coisas com meu próprio dinheiro, sem precisar gastar o deles.

Divago. Enfim, voltando...

22 de Dezembro de 2021.

E chegou o dia. Minha entrevista foi super bem e o evento da minha companheira também. Enchemos as malas logo de manhãzinha, tomamos um café reforçado, baixamos todos os mapas de Paranapiacaba e região pra não depender de internet, e saímos depois do almoço.

A viagem até Rio Grande da Serra foi divertida, mas longa. Chegamos na estação já à tarde, em torno das 15h. Atravessamos o trilho do trem, o que foi muito louco! E a cidade tinha o clima bem fresco, úmido: a neblina famosa já estava presente desde o trem.

Uma breve caminhada até o ponto de ônibus e finalmente pegamos o último transporte até a vilazinha. Em 20 minutos estávamos na entrada de Paranapiacaba :)

Exploração

O peso das mochilas já começava a mostrar que não tinha vindo pra brincadeira, e com as contas arqueadas fomos caminhando pelas ruazinhas de paralelepípedos da vila inglesa. Uma igreja ali, um bar aberto acolá, e... tem alguma coisa estranha...

O vazio

A cidade era praticamente fantasma. Passado o bar movimentado no topo da colina, íamos descendo e víamos um café, fechado. Depois vimos um outro bar, menor. Fechado. Um mercadinho estava aberto, então achamos que não era nada de mais. Atravessamos a ponte enferrujada, provavelmente com a mesma madeira desde que foi construída 100 anos antes, e chegamos no centro da vila em si.

Interlúdio

Antes de prosseguir a história, um detalhe importante: o camping que escolhemos fica a alguns bons kilômetros da vila em si, numa estrada de terra em que pouca gente anda. A dona do lugar sugeria alguns Ubers de confiança que conheciam o caminho e combinavam hora e lugar de encontro.

Prosseguindo...

...tem alguém aí?

E aí começou uma caminhada de mais de duas horas tentando achar respostas. Não só respostas, mas... gente. Pessoas. Vida. Qualquer coisa.

Os cafés e restaurantes, que operavam em casas coloniais, completamente fechados. As ruas, desertas. Os prédios da prefeitura, fechados e sem previsão de volta. Paramos pra comer numa praça ao lado de um mercado, que devia ser lindo se estivesse aberto. Mas nada. Tinham algumas poucas pessoas ali: duas mães e seus filhos, uma senhora sentada numa mureta, um rapaz fumando. Mas nada mais.

Começamos a pensar no que fazer a seguir, já que por mais que procurássemos na cidade não achávamos nenhum lugar aberto pra pedir informações. E, a propósito, descobrimos da pior forma que lá só pega sinal da Vivo. Nós somos clientes da Tim. Não cometa o mesmo erro porque dói, eu juro :)

Mas espera... sem sinal... como é que vamos chamar o maldito Uber???

Esperança

Depois de muito muito muito e muito (eu já disse muito) vaguear em busca de qualquer coisa aberta, nos sentamos ao lado do Centro de Informações para Turistas (irônico...) e por acaso descobrimos que um bar ali da frente tinha WiFi gratuito e estava funcionando. Um check-in rápido pelo Facebook depois e conseguimos finalmente contato com meus pais.

Explicamos a situação e dissemos que íamos insistir uma última vez na aventura, contatando um dos Ubers recomendados dali mesmo, o único ponto com internet da vila toda. E de fato fizemos, mas...

150 reais a ida, e mais 150 reais a volta

Conclusão

Ficou claro pra gente que não era pra ser. Gastar mais 300 reais era completamente inviável pra nós, e o fato da cidade estar como estava só trouxe desânimo. Além disso, o cansaço de carregar alguns kgs nas costas...

Ficamos chateados, é claro; planejamos aquilo por meses e quando finalmente aplicamos deu tudo errado. Mas nos resignamos, e ficamos felizes por pelo menos ter vivido uma aventura. E de fato achamos Paranapiacaba um charme, e pretendemos voltar no futuro, numa época em que haja qualquer resquício maior de vida.

E até agora estamos pra marcar outro acampamento, dessa vez num camping mais perto; o problema é conseguir dia e horário que não conflitem com meu expediente ou com as responsabilidades dela.

Por hoje é isso.

#pessoal #viagem #cotidiano

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